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| A Construção para o Amor |
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| Por Flávio Roberto de Carvalho Santos | |
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Resumo: Palavras-chave: desenvolvimento – construção – amor – unidade funcional
Abstrat:
From the Eros and Psiquê myth, this article talks about the psycho-affectionate construction that results in the expressive form of love in your life according to the characterollogical theory by Wilhelm Reich (1897/1957). The referred construction is seen as a functional unity, which the body takes part and marks the reaction form since the primitive development time until adult life. Some character forms are described in its principal aspects that, related to its neuropsychological construction, are presents as healthy or pathologic.
Keywords: development – construction – love – functional unity
Todos falam do amor, porém, alguns não o vivem realmente. Parece estranho tal condição, mas na realidade para exercer este sentimento há a necessidade de vários aspectos da maturidade bio-psico-social.
Para se entender o amor voltaremos, de forma resumida, às questões da mitologia sobre Eros e Psiquê. Segundo Brandão (1994), o mito nos dá a tentativa de organizar a vida, de explicar o que não era e passou a ser. Eros é uma palavra que deriva do grego Erw e se refere ao desejo irreprimível dos sentidos. Assim, também Cupido (romano), do verbo latino cupere, se refere a desejar ardentemente ou ter desejos instintivos ou sensuais. Psiquê, palavra do grego Yuch, significa sopro ou princípio vital. Em uma analogia podemos acoplar dois pontos extremamente importantes como o concreto e o sutil, o somático e o psíquico ou o corpo e o afeto. Estes são condições construídas no ser.
No aspecto mitológico Eros/Cupido aparece como filho de Afrodite/Vênus, onde a mãe, por uma relação de vingança desenrola toda a trama de amor. A história de Eros e Psiquê nos remete a pensar no amor iniciado por uma manipulação materna que toca a imaturidade individual dos personagens e que, posteriormente, passa a representar um amor maduro entre eles, inclusive no amor de Afrodite. A prova da imaturidade afetiva de Psiquê estaria na negação de suas sensações íntimas, se perdendo de si mesma e buscando fora a referência de seu afeto. Da mesma forma, Eros restringe o seu contato por um acordo incoerente. Segundo Bulfinch (2001), a história nos conta que Psiquê era a filha mais nova de um rei. Sua beleza indiscutível fez com que o povo a cultuasse como sendo a encarnação de Afrodite. A deusa Afrodite se sentiu ameaçada em ver esvaziar o seu templo e o ódio tomou conta de seus pensamentos. Arquitetou um plano onde manipularia o seu próprio filho para derrotar Psiquê. Induziu-o a acertar a bela princesa com uma de suas flechas para fazê-la apaixonar-se pelo ser mais horroroso da terra. Porém, no caminho da missão, Eros feriu-se com a própria seta e contaminou-se com o ‘vírus’ da paixão. O deus do amor mandou conduzir a princesa ao seu palácio. Quando anoiteceu, Eros apareceu e tornou a linda princesa sua mulher. Na possibilidade do sol nascer, desapareceu nos céus, porém, antes a faz prometer que nunca procuraria ver seu rosto. Assim viveram por algum tempo e Psiquê começou a sentir saudades da família. Pediu ao seu misterioso marido para ver as irmãs. Atendida pelo amante, estas morreram de inveja ao ver a suntuosidade e felicidade dela. Insinuaram para que ela buscasse saber quem era o marido, pois poderia estar casada com uma terrível serpente. Confusa, Psiquê aceitou as idéias das irmãs invejosas. Em uma noite, logo após entregar-se ao marido, esperou que ele adormecesse. De punhal e lampião nas mãos aproximou-se e teve a mais bela visão que nunca havia contemplado e, vendo as flechas, logo entendeu que estava casada com o deus do amor. Assustada, feriu-se e derramou o óleo do lampião no ombro de Eros que acordou. Decepcionado pela quebra da promessa, sumiu pelos céus e tudo em sua volta desapareceu.
Grávida, apaixonada e abandonada, percebeu que era feliz. Psiquê não valorizou suas sensações, perdeu-se de si mesma e foi presa fácil para as manipulações das irmãs. Seu desespero foi tão grande que atirou-se num rio, sendo devolvida à terra. Saiu, então, à procura do amado.
Tais fatos chegaram ao conhecimento de Afrodite que possuída de ódio foi repreender o filho queimado. Psiquê resolveu pedir a ajuda da sogra, onde esta vendo o desamparo da princesa impôs quatro severas missões.
A primeira foi separar por espécie uma grande quantidade de grãos misturados em uma única noite. Desolada, foi ajudada por formigas que fizeram todo o serviço e no dia seguinte tudo estava pronto para o desgosto de Afrodite.
A segunda missão foi trazer alguns flocos de lã de carneiros violentos e carnívoros cuja mordida continha um poderoso veneno letal. À beira do rio, muito desiludida e desanimada, a bela princesa ouviu os caniços da margem que lhe diziam para que voltasse à tarde, logo depois que os animais tivessem saciado a sede, pois os flocos de lã ficavam presos na vegetação. Prontamente assim fez para desespero da sogra.
A terceira missão era mais perigosa. Seria preciso encher um recipiente de cristal com as águas escuras da fonte que alimentava os rios Cócito e Estige, que era guardado por terríveis dragões. Chorosa pelo seu triste fim, comoveu o austero rei do olimpo, Zeus, que enviou sua águia com a jarra no bico para dar um mergulho no leito e enchê-la. O sucesso de Psiquê fulminava Afrodite.
A quarta missão tinha o peso do ódio mortal da deusa do amor. Ela deveria descer ao Hades (mundo dos mortos) e pedir à Perséfone (rainha das trevas) um pouco do creme da beleza imortal e colocá-lo em uma caixinha. Psiquê percebeu que sua hora final havia chegado e decidiu se atirar do alto de uma torre. Ao chegar ao topo, surpresa, a torre lhe indicou a forma de obter o que queria. Deveria ter dois óbolos (pequena moeda grega) na boca e um pão de mel em cada mão. Os óbolos pagariam a viagem de ida e de volta na barca de Caronte e os pães de mel para distrair Cérbero, o cão de três cabeças que guardava o Hades, na entrada e na saída. Não deveria aceitar nada oferecido no banquete da rainha, a não ser o pão preto e não deveria abrir a caixinha.
Ao retornar, sua curiosidade foi imensa que abriu a caixa contendo o creme que tornava as deusas eternamente belas. Foi envolvida num sono profundo e eterno. Eros, já recuperado, saiu a procura da amada com a permissão de Zeus. Ao encontrá-la, conduziu-a à mansão dos deuses onde Psiquê se tornou imortal, uniram-se e foram abençoados por todos os presentes, inclusive Afrodite, que foi convencida pelo rei do olimpo. Tempos depois nasceu a filha do casal chamada Volúpia, nome que significa prazer e bem-aventurança.
Desta pequena visão do amor grego, podemos entender porque Freud deu o nome de zona erógena aos segmentos do corpo que estão ligados às fases de desenvolvimento psicossexuais. Na realidade, estas áreas são assim denominadas porque são possíveis de se carregar de energia para buscar uma descarga, proporcionando o prazer. De um lado temos a descarga somática das áreas (Eros) e de outro a sensação de gratificação afetiva (Psiquê) num processo de unidade funcional.
Assim, a maturidade para o amor refere uma igualdade dos aspectos corporal e psicológico, isto é, para além do sexual. Nesta visão o “processo sexual é um processo biológico produtivo per se’ na procriação, no trabalho, no prazer de viver, na produtividade intelectual, etc.” (REICH, s/d p. 19)
Fazendo um paralelo da potência orgástica (capacidade do organismo para a entrega na vibração do prazer) com o amor, onde ambos referem uma forma para a vida, destacamos Gibier (2000, p. 60):
“sobre a questão da apreensão da potência orgástica, sabemos que tal potência atravessa o sujeito nos diferentes campos vitais, tais como sexual, afetivo, intelectual, criativo, político, histórico, etc., não sendo portanto uma vivência exclusiva dos genitais”.
Reich (1989), ao ressaltar o indivíduo saudável, o caráter genital ou o indivíduo que é capaz de amar, descreve-o em várias áreas da vida onde a naturalidade se faz presente com expressividade afetiva de prazer no que se refere a si próprio, ao outro e ao meio ambiente.
Fazendo uma rápida leitura de algumas formas caracteriais proposta por Reich (Op. Cit.), ressaltamos como cada um constrói o seu modo de amar e como desenvolve seu desejo de ser amado incluindo a condição somática e afetiva. O caráter é a forma especifica de uma pessoa reagir, havendo uma correlação entre os traços comportamentais, pensamentos e sentimentos do adulto com os impulsos reprimidos na infância. Portanto, essa atitude de reação provém das experiências da infância.
A maneira de agir – o caráter – se formou como uma proteção do Ego, onde este utiliza a neuromuscularidade, para conter as necessidades internas instintivas e imediatistas do Id e, também, em relação ao mundo externo em sua realidade coercitiva. Isto resultará em uma forma estabelecida ou endurecida de ser. A flexibilidade para a expressão do afeto para viver, nesta formação, é reduzida. As reações de contração são automatizadas e impedem o livre fluir da corrente energética do corpo e da sensação afetiva. Para amar é necessário um organismo que pulse e suporte a expansão do prazer nas diversas situações de vida.
Ao falarmos da construção da forma individual de amar, queremos nos referir aos tipos de personalidade que se estruturou a partir da infância. A característica histérica é aquela que desenvolveu uma forma sexual incoerente, pois a agilidade comportamental é pautada pela sensualidade sedutora artificial, onde esta manifestação aparece muito cedo na vida infantil. Na vida adulta, a excitação não acompanha a satisfação, o que se manifesta como ansiedade. A instabilidade de reações e idéias aparecem freqüentemente e a forma de amar terá um cunho fantasioso e exagerado. De modo geral, desejará do mundo um amor imenso ou a desilusão será grandioso demais. Este tipo está fixado na fase genital com vinculações incestuosas da fase anterior do desenvolvimento. Ou seja, seu amor original relativo aos pais não se deslocou para fora do círculo familiar.
As fases anteriores foram vividas relativamente de forma adequada, porém ao chegar na genitalidade ocorreram repressões fortes que deformaram o amor natural com cunho sensual em algo perigoso. O amor incestuoso ficou reprimido e a manifestação energética se mantém livre no organismo de modo que “genitaliza” tudo com um cunho pré-genital (infantil). Mesmo que encontre um ‘grande’ amor, este não terá a possibilidade de prazer em função da base de angústia pelo vínculo afetivo incestuoso. A atitude sexual exagerada nada mais é que a defesa à entrega na sexualidade e no amor. A busca constante do amor sempre perfeito é uma das formas mais presentes deste tipo.
A característica fálico-narcisita apresenta-se com uma autoconfiança acentuada. Proporciona uma impressão constante de um peito de aço e que pode resolver tudo, às vezes passar por cima de todos. O exibicionismo e o desdenho agressivo é freqüente em sua conduta, onde este se opõe à gentileza. Seu componente narcísico é demasiado e muito maior para valorizar o outro em uma relação afetiva, o que o leva a uma atitude sádica ou dissimulada. O “amor” é apenas uma forma de demonstrar como é bom no que faz e para se sentir orgulhoso de si, pois tudo se resume no ato sexual como forma de desempenho exibido.
A coragem agressiva e combativa é um marcante em suas decisões e sua defesa é exatamente do medo de entregar-se, pois sugere passividade e fraqueza. A potência eretiva é o marco em sua personalidade, contudo o prazer está comprometido, onde o pênis serve como instrumento agressivo e não como expressão de afetividade amorosa pelo encontro.
As formas de amor são sempre acompanhadas de menosprezo pelo outro, embora sejam tipos bem desejados pela sua aparência atlética. No seu desenvolvimento, o Ego se identifica com a característica fálica (maior autonomia) porque a erotização anal (menor autonomia) acabou de ser abandonada. Esta fixação no orgulho e na autoconfiança do representante de poder-prazer (falo) é uma defesa em função de não ter atingido uma genitalidade adequada. Então, a manutenção das energias nesta fase fálica com componente narcísico se acentua como uma defesa contra o retorno à fase anteriormente deixada: a característica afetiva da passividade (fase anal). Por isso há sempre o sentimento do medo de ser atacado que é reprimido, o que pode apresentar um ar superficial de vergonha ou reserva.
Na infância há sempre uma frustração aos empenhos heterossexuais no auge do impulso no momento da conquista do outro pela exibição fálica. Uma mãe rigorosa que não acolhe adequadamente estes investimentos do filho e os reprime veementemente e, do mesmo modo, no caso do pai, em relação à filha. Haverá uma identificação com a principal pessoa frustradora, onde o outro será sempre desejado, mas nunca conquistado, restando apenas um sentimento narcisista em função do medo do amor ao outro, mas também se protegendo da passividade controladora da fase anterior.
A característica compulsiva é aquela que mais precisamente consegue conter os impulsos como proteção do Ego. O traço repetitivo de controle é maciço. A ordem exagerada está presente em todos os seus comportamentos e a liberdade para amar é algo que o incomoda muito. Há uma falta de expressividade, porém é compensado pela minuciosidade desnecessária ou generalizada para as tarefas sem importância. Seu comportamento geral é artificial ou formal. Há também um bloqueio afetivo, onde o controle do que pensa e sente está sempre presente como forma de manter quieto as idéias que estão reprimidas. Em geral é sempre mal intencionado, seus pensamentos de vingança são mordazes e representam uma necessidade de manter-se escondido.
Por isso, sua aparência de autodomínio está presente sobre qualquer coisa, mostrando-se sereno ou indiferente quanto às suas manifestações de amor. Uma forma de compensação é dar atenção a todos os fatos indiscriminadamente com um ar de crítica em função da severa repressão vivida na aprendizagem do controle (fase anal). O erotismo anal, período de construção do Ego por volta do segundo ou terceiro ano de vida, é vivenciado com uma rigidez de controle realizado, em especial, pela mãe. O amor (prazer) por aprender a dominar e controlar suas produções corporais (fezes e urina), que deveria ser acolhido maternalmente,é levado ao exagero da severidade externa, ou seja, a vontade do outro sobre o seu corpo.
Mais tarde, na puberdade, não haverá carga suficiente para a sexualidade genital, onde retornará ao processo anterior de conter todos os seus sentimentos com um corpo já encouraçado, no qual a forma é a indiferença. O sadismo dirigido contra a figura feminina é reprimido e levará ao comportamento narcisista valorizando a estética e condutas éticas ou moralistas acentuadas. Os afetos são separados do pensamento. Aqui, não há amor a dar nem a receber, pois as atuais possibilidades de expressividade e movimento corporal fazem reviver as excitações que teve que controlar forçosamente e que acarretou angústia pelo medo da punição. O amor não pode acontecer porque a ordem de controle plantada pelo mundo externo sobre o Ego, inicialmente em formação, ainda é obedecida. Assim, a ambivalência é um traço constante, pois o amor e o ódio estão sempre presentes em relação ao outro de forma também a ser controlado.
A característica masoquista é aquela que se apresenta com um sentimento subjetivo constante de sofrimento, de forma a se queixar somado ao ato de aplicar pena, dor e humilhação a si mesmo, além de uma grande tendência para atormentar os outros. Seu comportamento não tem muito movimento, sendo desajeitado nas relações com as pessoas. Este caráter deseja o prazer, mas antecipa o seu sofrimento com medo de um dano maior, ou seja, o medo de uma punição grave é substituída por uma menor. As provocações no comportamento servem para enfurecer o outro que lhe responde com um ataque e, desta forma, esconde o que realmente sente. Isso pode ser traduzido: "Você é mau, me trata muito mal, não gosta de mim, não me ama... por isso te odeio, sou infeliz!". Isso reduz o ódio interno e é “justificado” pelo comportamento do outro. Ele tende a provocar os objetos 'amados' para esconder seu desapontamento.
Durante o desenvolvimento afetivo houve muito amor, porém não foi satisfeito suficientemente. Um grande desejo de ser amado acompanha uma grande decepção. Na verdade ele testa para saber se é ou pode ser amado. O que realmente quer é ser amado, mas pelo medo, aparece a necessidade de castigo. Isto resulta em: "Olhe como eu sofro... Você precisa me amar..." Tenta obter amor inadequadamente pela provocação e desafios para minimizar a angústia. É o medo de ser abandonado que foi vivenciado na tenra infância. Tende a captar atenções com sofrimentos alheios e de sua própria dor, onde se sente 'acolhido no amor'.
O sentido tátil deste tipo é marcante. O erotismo da pele é especial. Beliscões, chicotadas e ser amarrado oferecem uma forma de proximidade cutânea e que não tem o sentido de provocar a dor, mas de sentir o ardor. A pele aquecida pela vasodilatação periférica descarrega a energia aliviando a angústia. Não ser amado é ficar desamparado e sentir frio, ou seja, um sofrimento maior que ser atacado. O proteja-me é substituído pelo bata-me. Não suporta os elogios em função de uma grande inibição e a falta do componente narcísico no Ego, sendo autodepreciativo. Os elogios o levam a uma grande excitação fálica impossível de ser tolerada por sua estrutura mais passiva que, ao gerar angústia, tende ao sofrimento. A satisfação tão desejada é decodificada como ameaçadora de sua integridade e, pelo medo da punição severa e oposto à satisfação, o desprazer aparece como resultado de seu grande desejo. Então: “Bata-me para que eu não me sinta culpado por desejar, excitar e amar!”
Em resumo, Reich (1989, p. 233) destaca que:
“o caráter histérico desenvolve angústia em lugar de uma prova franca de amor; o caráter compulsivo manifesta ódio e sentimentos de culpa; o caráter masoquista demonstra e exige amor de maneira sinuosa, através da queixa, provocação ou mostrando infelicidade. Todas essas variadas formas estão totalmente de acordo com as respectivas gêneses desses tipos: o caráter histérico desenvolveu sua genitalidade por completo, mas ela está misturada com o medo; o caráter compulsivo substitui sua genitalidade pelo sadismo fálico; o caráter masoquista chegou à genitalidade pelo exibicionismo, depois reprimiu-o e agora persiste na manifestação distorcida de amor.”
Em todas estas formas caracterológicas descritas pelo autor (Op. Cit.), podemos pensar numa mãe (Afrodite) que não permitiu ao outro vivenciar o amor em função de seu próprio amor comprometido. Dessa forma, o amor não acontece e resulta em circunstâncias em que o homem parece cada vez mais perder a humanidade, a simplicidade e a afetividade, aspectos marcantes da vida adulta e que expressam o exercício do amor.
O caráter genital ou maduro é aquele que exercita o amor saudável (do latim sallutis, refere ‘estado são’ ou ‘salvação’) por ter passado pelo processo de desenvolvimento neuro-afetivo adequadamente, isto é, com boas resoluções nas fases de maturação/construção de seu ser, eliminando angústias, conflitos e as repressões ocorridas, atingindo uma genitalidade (de estrutura afetiva e não somente de órgão genital) natural que propiciará uma vida de qualidade em todos os aspectos onde o amor possa se expressar.
Essa possibilidade de maturidade ocorre pela vivência da afetividade sustentada pela maturação neural na direção céfalo-caudal. O desenvolvimento programado pelo biológico mantém sua trajetória natural, desde que adequadamente atendido, e o psicológico depende das condições coerentes e saudáveis da pessoa que cuida da criança neste período de relação simbiótica (psicológica) até maturar o ser.
“Na construção para o amor”, é preciso valorizar a vida e o afeto desde a concepção, onde o planejar e o desejar a criança gera um meio acolhedor no útero em que ela reage (não pensa) a tal condição. O parto deve ser encarado como um momento de grande prazer para dar ao neonato o registro corporal de aceitação no meio externo. A amamentação como um momento de total doação e deve ser realizado com o prazer de nutrir o outro de alimento e afeto, onde o lactente recebe com igual prazer. O desmame, momento de se desligar do outro, é necessário que aconteça com segurança para que o bebê possa conhecer novas possibilidades. A individualização, pelo reconhecimento de seus desejos centrados no EU em construção, deve ocorrer com o auxílio da tranqüilidade materna e paterna.
A socialização, pela diferenciação do outro, deve permitir lidar com o outro que pensa e sente além de si. A sexualidade, em vários momentos desta fase, deve ser vivida como um processo de descoberta de seu corpo e sensações agradáveis pertinente ao humano, onde a mãe num primeiro momento, torna o objeto direcionado dessa construção até o momento do deslocamento para fora da família em relação ao que foi construído. O estudo é vivido como algo que contribui para sua formação e lhe possibilita o conhecimento da vida e de sua vida. O pensamento sobre o que lhe cerca é sempre orientado para a objetividade e a coerência, não tentando nunca impor suas idéias. A ação está em harmonia com o pensamento e a construção de melhorias de si, do outro e do social. As questões de amor à natureza e a ecologia são sempre valorizadas e vistas como o homem pode ser preventivo em suas pequenas atitudes.
A religiosidade é vivida sempre com um sentido de religar suas sensações à essência da natureza numa construção de identidade, não sendo, portanto, místico ou mecanicista, mas sim coerente. A morte não lhe causa medo, pois sabe ter prazer na vida. Uma vida saudável é capaz de amar, pois é “uma vida econômico-sexual satisfatória de trabalho e amor”. (REICH, 1989 p. 245)
Assim, o mesmo autor (Op. Cit., 2003), ressaltando as características construídas longe do “phatos” (sofrimento) para o amor na vida, comenta que o ser humano saudável percebe a si mesmo e ao mundo que o circula, e nisto, há um colorido em suas sensações que o leva a uma ação coerente conduzindo a uma vitalidade do funcionalismo somatopsíquico. Ele se torna vivo, brilhante e capaz de lidar com os problemas e com o prazer. Progenitores com esta construção vêem os filhos como crianças alegres, as educam com harmonia e planejamentos de futuro, valorizando suas questões ‘simples’ da infância.
O educador a vê como um ser em movimento e em desenvolvimento a ser direcionado sem repressão. O prazer e o amor são vividos sem ansiedade ou culpa porque há um fluir de sensações e percepções no corpo e para além dele. É o encontro e a entrega com o outro porque há o mesmo consigo próprio. Isso foi possibilitado por uma construção saudável desde a vida intra-uterina até a afirmatividade/assertividade na descoberta do mundo fora do lar. Este saberá amar, odiar, perdoar e ter medo do que realmente justificar o seu sentimento. Portanto, podemos dizer que este ser participa da essência da vida que é funcionar: tensão – carga – descarga – relaxamento = amor. Assim deveremos construir os nossos filhos!
“A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que,
esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade”.
Carlos Drumond de Andrade
Referência bibliográfica:
Andrade, C. D. – Amar se aprende amando. 6ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1986.
Bulfinch, T. – O livro de ouro da mitologia – histórias de Deuses e Heróis. 13º ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.
Brandão, J. S. – Mitologia grega. Petrópolis: Vozes, 1994. Vol. I
Gibier, L. – Epistemologia e o campo das psicoterapias corporais. In: Maluf Jr., N. – Reich: o corpo e a clínica. São Paulo; Summus, 2000.
Reich, W. – A biopatia do câncer Vol. I – Curitiba: Edição especial do Centro Reichiano, (s/d)
Reich, W. – Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
Reich, W. – O Éter, Deus e o Diabo. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
* Flávio Roberto de Carvalho Santos – Psicólogo/UGF, Mestre em Sexologia Clínica/UGF, Doutorando em Saúde da Criança e do Adolescente/UNICAMP e trabalha com a abordagem corporal.
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