|
Franklin Cunha
Médico Ginecologista
Na história da humanidade o ato que marcou a passagem da barbárie para a civilização, foi a abolição do incesto e do assassinato entre os membros do clã primitivo.É, segundo alguns antropólogos, a chamada Lei Primordial. As lutas homicidas entre os membros de um mesmo grupo, punham em risco a sobrevivência não só do clã humano como da própria humanidade em geral, numa época de rarefeitas populações.
Como condição primeira para evitar o extermínio do futuro da espécie, a solidariedade foi consensualmente aceita e posta em prática pelo já, agora, Homo sapiens. O Homo habilis que, na disputa por alimentos, fazia porretes, machados e lanças de pedra, deu lugar ao Sapiens que começou a fazer potes, panelas e amuletos de barro. O guerreiro solitário deu lugar ao coletor e caçador solidário.
A agricultura estabelecida posteriormente como forma de subsistência, proporcionou um novo paradigma de relações pessoais e sociais, pois deu origem à propriedade privada da terra, de seus produtos e, novamente, à violência como forma de obtenção e armazenamento dos alimentos.Também transformou o clã primitivo na família monogâmica e patriarcal, na delimitação do espaço privado para a mulher e do espaço público para o homem.
Foi, segundo Engels, (Fredrich Engels, Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado), a primeira divisão do trabalho entre os sexos. Ao homem coube o trabalho agrícola na produção de grãos e proteínas e à mulher, a guarda, conservação e preparo dos mesmos para toda a família. Assim estabeleceu-se o domínio do masculino sobre o feminino, ou seja, do patriarcado sobre o matriarcado, “ da espada sobre o cálice” ( Elizabeth Badinter, O Um e o Outro, Ed. Nova Fronteira,1986, Rio de Janeiro) enfim, da falocracia mantida até hoje através da persuasão ideológica e da violência.
Lembremos Norbert Elias (Elias, N. A Sociedade dos Indivíduos , Jorge Zahar Ed. 1994, Rio de Janeiro): “ Na base das mudanças sociais encontram-se formas particulares de relações humanas, tensões específicas entre pessoas. As tensões aparecem quando pessoas ou grupos conquistam um monopólio hereditário de bens e valores sociais necessários fundamentalmente a outras pessoas para sua subsistência e para seus bens sociais.
Entre outros está o monopólio econômico que direta ou indiretamente liga-se a outros, entre os quais ao monopólios da força física e seus instrumentos como o monopólio das armas exercido, em geral, por número significativo de pessoas e o da violência física que pode ser exercida por um indivíduo como na época do absolutismo”.
E o monopólio da economia e da força física referido por N. Elias é legitimado pelo monopólio ideológico exercido pela falocracia estabelecida dentro das famílias, nas salas de aula e nos meios de comunicação. A submissão da mulher ao homem, é inicialmente estabelecida pelas próprias mulheres na educação familiar, através de preconceitos e tabus ancestrais, que ensinam restrições e contenções de toda ordem às meninas e liberações e deslimitações aos meninos.Tudo começa com os contos infantis( A Psicanálise dos Contos de Fada, Bruno Betteheim, ed. Paz e Terra, 1990, Rio de Janeiro – Repressão Sexual, Marilena Chauí, d. Brasiliense,1984. S. Paulo) e prossegue com os desenhos animados da TV, recheados de violência e de atitudes machistas ( vide Cartoon Network ).
Na educação, a ideologia machista é pregada, velada ou claramente, desde o ensino primário até o universitário. É só interpretar criticamente os conteúdos dos programas de ensino para nos certificarmos desse fato.
Nos meios de comunicação, o uso e abuso de um exacerbado e pornografado ( e falso) erotismo como promotor de vendas e de lucros financeiros, prostitui as mulheres com promessas de sucesso pessoal e social que significa para elas uma tentativa de fuga da submissão ao escravagismo falocrata.( El Sexo Oculto Del Dinero, Clara Coria, Paidos,1992, Buenos Aires)
Não é de se estranhar, portanto, - e assim se explica – a pandemia de violência sexual consubstanciada nos estupros, torturas , campanhas abortistas, hoje ideológica e financeiramente globalizadas .
A Lei Primordial necessita, de novo, ser estabelecida. |