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| RBSH - Volume 10 - No. 1 - 1999 |
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Destaque desta edição Parece natural pensarmos que a identidade biológica e a identidade de gênero estão relacionadas, sendo a asculinidade no homem e a feminilidade na mulher um destino. Perguntamos, então, se isso não sugere um esquema válido para todos os homens e para todas as mulheres, e se este esquema não seja válido para a identidade sexual, conforme apontam recentes descobertas no campo da sexualidade humana. Ilustremos com o caso do americano John, cujo sobrenome foi mantido em sigilo. Trata-se de um homem que aos oito meses de vida, em 1963, teve a maior parte do seu pênis decepado numa circuncisão mal-feita. Por acreditar que, no futuro, ele não poderia ter uma vida normal como homem, os médicos convenceram seus pais a educá-lo como uma menina. John foi castrado e os médicos criaram uma vagina no lugar do pênis mutilado, e seu nome foi mudado para Joan. Na infância, ganhou bonecas, usou vestidos e, aos 12 anos, passou a receber hormônios femininos para desenvolver seios. Acompanhado por pediatras da John Hopkins, uma respeitada escola médica, John/Joan foi considerado uma “nienina normal” e entrou na literatura científica como prova de que o ambiente, e não os cromossomos, tem preponderância na definição de preferências sexuais. Este estudo foi publicado pela Archives of Pediactric and Adolescent Medicine no início de março de 1997 e dá uma nova versão para o caso, afirmando que a mudança de sexo foi um fracasso. Na infância, John rasgava seus vestidos, preferia armas de brinquedo a bonecas e insistia em urinar de pé. Quando ficou mais velho, era rejeitado pelos colegas em virtude dos trejeitos masculinos. “Eu me achava desajustado”, relatou John aos cientistas que o entrevistaram. Aos 14 anos, à beira de uma tentativa de suicídio, ele finalmente soube a verdade. Passou por uma nova cirurgia para reimplantar o pênis mutilado, e outra para retirar os seios. Está casado desde 1988 e tem três filhos adotivos.1 Quem era John? Um homem em sua essência ou uma “mulher acidental”? O que o(a) fazia homem ou mulher? Seus caracteres anatômicos e físicos, sua herança genética ou cromossômica, ou suas atitudes sócio e culturalmente definidas como femininas, reforçadas pela cirurgia plástica que sofreu? Como se constitui, enfim, sua identidade sexual? O caso de John/Joan/John poderia servir de um bom exemplo para assegurar a dominância do sexo biológico sobre a identidade de gênero e sexual? Mas se John tivesse mantido sua anatomia feminina, desenvolvesse uma identidade de gênero masculina e fizesse uma escolha afetiva heterossexual (casando-se com um homem) - ele poderia ser considerado homossexual? Ou ainda, se ele se mantivesse como fêmea, adaptando-se ao gênero feminino e fizesse uma escolha afetiva e sexual homossexual (casando-se com uma mulher), novamente ele seria homo ou heterossexual? O que vai definir, então, a sua identidade como sendo masculina ou feminina, ou como sendo hetero, homo ou bissexual? Do nosso ponto de vista, dificuldades em se dar descrições sobre si ou sobre o outro tornam-se problemáticas na medida em que também se tornam problemáticas as noções de identidade de gênero e sexual, e bem ou mal, a ciência, e sobretudo as ciências biológicas, tentam afirmar a influência do dado biológico sobre o dado cultural, social e comportamental, encerrando o discurso e impedindo as problemáticas decorrentes deste pensamento. * Centro de Educação do Campus da Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa-PB.
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