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RBSH - Volume 10 - No. 1 - 1999 PDF Imprimir E-mail

Destaque desta edição

Segmento do Artigo: O conflito identitário: sexo e gênero na constituição das identidades
Sergio Gomes da Silva **

COMENTÁRIOS
Nos últimos anos, cada vez mais temos visto pesquisas que vêm tentando apontar o predomínio do dado biológico na determinação de nossa sexualidade. Ao mesmo tempo, após o advento do movimento feminista e dos “estudos de gênero”, hoje verifica-se a procura de hegemonia frente as subjetividades masculinas e femininas, tentando descrever homens e mulheres a partir dos conceitos de sexo e gênero. No nosso entender, descrições de sujeito como esta tem promovido em alguns indivíduos um “conflito identitário” de tal modo, que este já não seria capaz de descrever a si mesmo, face a pluralidade identitária que o conceito de identidade de gênero e sexual dispõe. Assim, objetivamos neste trabalho, verificar como se desenvolveram estes conceitos, quais as interrelações com aquilo que Stoller denominou de “núcleo de identidade de gênero”, e quais contribuições podemos apontar para a resolução do conflito identitário na contemporaneidade.

Parece natural pensarmos que a identidade biológica e a identidade de gênero estão relacionadas, sendo a asculinidade no homem e a feminilidade na mulher um destino. Perguntamos, então, se isso não sugere um esquema válido para todos os homens e para todas as mulheres, e se este esquema não seja válido para a identidade sexual, conforme apontam recentes descobertas no campo da sexualidade humana.

Ilustremos com o caso do americano John, cujo sobrenome foi mantido em sigilo. Trata-se de um homem que aos oito meses de vida, em 1963, teve a maior parte do seu pênis decepado numa circuncisão mal-feita. Por acreditar que, no futuro, ele não poderia ter uma vida normal como homem, os médicos convenceram seus pais a educá-lo como uma menina. John foi castrado e os médicos criaram uma vagina no lugar do pênis mutilado, e seu nome foi mudado para Joan. Na infância, ganhou bonecas, usou vestidos e, aos 12 anos, passou a receber hormônios femininos para desenvolver seios. Acompanhado por pediatras da John Hopkins, uma respeitada escola médica, John/Joan foi considerado uma “nienina normal” e entrou na literatura científica como prova de que o ambiente, e não os cromossomos, tem preponderância na definição de preferências sexuais. Este estudo foi publicado pela Archives of Pediactric and Adolescent Medicine no início de março de 1997 e dá uma nova versão para o caso, afirmando que a mudança de sexo foi um fracasso. Na infância, John rasgava seus vestidos, preferia armas de brinquedo a bonecas e insistia em urinar de pé. Quando ficou mais velho, era rejeitado pelos colegas em virtude dos trejeitos masculinos. “Eu me achava desajustado”, relatou John aos cientistas que o entrevistaram. Aos 14 anos, à beira de uma tentativa de suicídio, ele finalmente soube a verdade. Passou por uma nova cirurgia para reimplantar o pênis mutilado, e outra para retirar os seios. Está casado desde 1988 e tem três filhos adotivos.1

Quem era John? Um homem em sua essência ou uma “mulher acidental”? O que o(a) fazia homem ou mulher? Seus caracteres anatômicos e físicos, sua herança genética ou cromossômica, ou suas atitudes sócio e culturalmente definidas como femininas, reforçadas pela cirurgia plástica que sofreu? Como se constitui, enfim, sua identidade sexual?

O caso de John/Joan/John poderia servir de um bom exemplo para assegurar a dominância do sexo biológico sobre a identidade de gênero e sexual?

Mas se John tivesse mantido sua anatomia feminina, desenvolvesse uma identidade de gênero masculina e fizesse uma escolha afetiva heterossexual (casando-se com um homem) - ele poderia ser considerado homossexual? Ou ainda, se ele se mantivesse como fêmea, adaptando-se ao gênero feminino e fizesse uma escolha afetiva e sexual homossexual (casando-se com uma mulher), novamente ele seria homo ou heterossexual? O que vai definir, então, a sua identidade como sendo masculina ou feminina, ou como sendo hetero, homo ou bissexual?

Do nosso ponto de vista, dificuldades em se dar descrições sobre si ou sobre o outro tornam-se problemáticas na medida em que também se tornam problemáticas as noções de identidade de gênero e sexual, e bem ou mal, a ciência, e sobretudo as ciências biológicas, tentam afirmar a influência do dado biológico sobre o dado cultural, social e comportamental, encerrando o discurso e impedindo as problemáticas decorrentes deste pensamento.

* Centro de Educação do Campus da Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa-PB.
** Psicólogo.
Recebido em 17.02.99 Aprovado em 10.03.99


Veja o que mais você pode encontrar nesta edição

Sumário

Editorial
  Trabalhos Opinativos e de Revisão
1 Anticoncepcionais hormonais disponíveis no mercado brasileiro
2 Supervisão em terapia sexual no curso de pós-graduação latu-sensu em Terapia Sexual do Persona/SBRASH
3 Alterações na sexualidade da mulher no climatério
4 Construindo o imaginário: a autorização para ser “mulher, heterossexual e ortodoxa”
5 A vitimização sexual em criança e adolescentes: os profissionais de saúde e os aspectos legais
6 Projeto de inclusão da disciplina Educação Sexual como matéria optativa nos cursos de Comunicação Social
7 Psicossomática do prazer feminino
8 O conflito identitário: sexo e gênero na constituição das identidades
   
  Trabalhos de Pesquisa
1 O perfil do educador gaúcho em relação à sexualidade
2 A vivência da gravidez e da maternidade de prostitutas
   
  Estudo de Caso
1 Casamento não consumado por disfunção eretiva psicogênica
 
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