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RBSH - Volume 17 - No. 1 - 2006 PDF Imprimir E-mail

Destaque desta edição

Um Breve Olhar Histórico Sobre a Homossexualidade
Marcelo Augusto Toniette

COMENTÁRIOS
Em um breve olhar histórico sobre a construção social da homossexualidade, temos que na Grécia Antiga ela tinha status privilegiado, na forma de pederastia, consistindo em parte da passagem de um rapaz, com idade entre 12 e 20 anos, para a vida adulta, sendo uma forma elevada de educação e transmissão de valores aristocráticos de uma geração a outra. Foucault (2001b) mostra que os gregos não se opunham ao relacionamento entre pessoas de sexos diferentes ou a relação entre pessoas do mesmo sexo. A repressão e o controle, ou a negatividade ética por excelência, eram direcionados não àqueles que tinham desejo afetivo-sexual pelo mesmo sexo, pelo sexo oposto, ou por ambos, mas sim, àqueles que tinham comportamento frouxo, ou eram passivos em relação aos prazeres, que consistia no comportamento de não resistir nem às mulheres e nem aos homens (FOUCAULT, 2001b; BRUNS & MARQUE, 2002). Aqueles que, ndependentemente do objeto sexual que escolhessem, eram considerados femininos carregavam consigo os... signos tradicionais dessa feminilidade preguiça, indolência, recusa das atividades um tanto rudes do esporte, gosto pelos perfumes e pelos adornos, lassidão... (FOUCAULT, 2001b, p.79). Fica evidenciado aqui a desigualdade entre gêneros, sendo considerados inferiores os atributos relacionados ao gênero feminino.

O Estado homofóbico nasceu mais tarde, na Europa Medieval, a partir das autocracias combinadas da Igreja e do Estado, sacralizando a sexualidade e estabelecendo o ideal heterossexual. Por volta de 1700, com a reforma puritanista, houve a introdução das noções de bem e de mal absolutos, e os homens que mantinham relação com outros homens passaram a ser vistos como criminosos. Nesse período, o homossexual, por não apresentar comportamento que levasse à reprodução, foi colocado no mesmo nível de assassinos, hereges e traidores (SPENCER, 1999).
Em 1869, o médico Karoly Maria Benkert foi o pioneiro em escrever sobre o relacionamento afetivo-sexual entre pessoas do mesmo sexo, cunhando o termo homossexual. Karl Heinrich Ülrichs já havia estudado esse tipo de relacionamento sob o termo de uranismo, entre 1860 e 1890. Em 1878, o médico italiano Arrigo Tamasia propôs o diagnóstico inversione dell instinto sessuale, que mais tarde, em 1882, foi adotada pelos neurologistas franceses Charcot e Magnan.
Em 1886, foi cunhado o termo diagnóstico homossexualismo, por Richard von Krafft-Ebing, autor de Psychopathia Sexualis, médico católico que defendia que o erotismo deveria ser regulado pela exigência de reprodução da espécie e dos ideais de amor a Deus e à família. A obra citada reunia casos de fetichismo, masoquismo, necrofilia, homossexualismo, entre outros.
Para Krafft-Ebing a homossexualidade estava sempre associada ao travestismo e que ambos eram sinal de degradação. O termo homossexualismo foi levado para o grande público pelos médicos alemães Magnus Hirschfeld e Havelock Ellis. No Brasil o termo homossexual foi utilizado pela primeira vez em 1894, por Viveiros de Castro, em sua obra Attentados ao pudor: estudos sobre as aberrações do instincto sexual, em uma conotação patológica.
Foucault (2001a) mostra que nesse período as expressões sexuais que ficaram à mercê das práticas de controle social eram: ... as sexualidades múltiplas as que aparecem com as idades (sexualidade do lactente ou da criança), as que se fixam em gostos ou práticas (sexualidade do invertido, do gerontófilo, do fetichista...), as que investem difusamente no relacionamento (sexualidade da relação médico-paciente, pedagogo-aluno, psiquiatra louco), as que habitam espaços definitivos (sexualidade do lar, da escola, da prisão) todas constituem o correlato de procedimentos precisos de poder (p.47).
Uma verdadeira caça as sexualidades periféricas teve início com a incorporação das perversões e a nova especificação dos indivíduos, a partir da delimitação do modelo da sexualidade familiar, conjugal e heterossexual enquanto fortaleza da moral privada e signo da superioridade da cultura burguesa frente as outras classes e aos povos colonizados (COSTA, 2002, p.33). Dentre as sexualidades periféricas, de acordo com Foucault (2001a) a homossexualidade apareceu como uma das figuras da sexualidade quando foi transferida, da prática sodomita, para uma espécie de androgenia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era um reincidente, agora o homossexual é uma espécie (p.44).
A ciência médica se apropriou desse espaço, indo além do tratamento de doenças sexualmente transmissíveis, chegando ao campo moral que se acreditou ser a raiz dos desvios sexuais. Assim, a homossexualidade acabou se tornando no século XIX um marcador-chave para a heterossexualidade normativa, e um elemento importante para a produção e reprodução do regime dominante de vida sexual na sociedade ocidental contemporânea (PARKER, 2002).

Veja o que mais você pode encontrar nesta edição

Sumário

Normas Para Publicação
 
Editorial
   
Trabalhos de Pesquisas
  Mudanças provocadas pelo câncer na vida social e sexual do paciente e seu cônjuge
Changes caused by cancer in the social and sexual lives of patients and partners
  Carlos Alberto Dias, Joelma Ana Espíndula, Anna Júlia Bravim Vilela
   
Artigos Opinativos de Atualização
  Um breve olhar histórico sobre a homossexualidade
A briefing to look historical on the homosexuality
  Marcelo Augusto Toniette
  Efeitos colaterais dos antidepressivos sobre a sexualidade
Side effects of antidepressants on sexuality
  Joaquim Dias do Nascimento Filho
  Sexo, sexualidade e gênero
Sex, sexuality and gender
  Paulo Roberto Bastos Canella
  Relações amorosas na adolescência
Love relationship between teenagers
  Ana Cristina Canosa Gonçalves
  Algumas reflexões sobre a interface da diversidade sexual e os relacionamentos afetivos com o direito
Some reflections about the interface of sexual diversity and affectionate relationships with law
  Tereza Rodrigues Vieira
   
Resenha de Livro
  A ciência do orgasmo
  Jaqueline Brendler
Livro: The Science of Orgasm – Barry R. Komisaruk; Carlos Beyer-Flores & Beverly Whipple
 
Notícias da Sbrash
 

Prova do III concurso para obtenção do tesh da sbrash Salvador 2006

 
Ficha para Atualização de Dados e Anuidade
 
Proposta de Inscrição
 
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