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RBSH - Volume 19 - No. 1 - 2008 PDF Imprimir E-mail

Destaque desta edição

O Orgasmo na Vida Sexual da Mulher Contemporânea
Keila Eloisa Machado Santos Prata1
Carlos Alberto Dias

COMENTÁRIOS
No Século XX, surgiram diversos estudos sobre a sexualidade humana, em especial, sobre a sexualidade feminina. Tais estudos se centram, principalmente, sobre o orgasmo clitoridiano e o orgasmo vaginal. Os autores de orientação psicanalítica não reconhecem o clitóris como importante elemento para o orgasmo feminino. Entendem que o orgasmo obtido através da manipulação do mesmo é imaturo e infantil. Diferentemente dessa visão, estudiosos do comportamento sexual desenvolveram pesquisas mais recentes nas quais observaram a importância do clitóris durante o ato sexual. Perceberam que, sendo o corpo humano sexualizado em sua totalidade, o saber fazer uso das áreas mais sensíveis para obter o orgasmo, é indicador de maturidade afetiva e sexual. Nesse caso, o clitóris se apresenta como área privilegiada, capaz, através de sua manipulação, de levar a mulher ao ápice do ato sexual, ou seja, a atingir o orgasmo.

Não existe um padrão específico de contato que, de forma infalível, favoreça a obtenção do orgasmo pela mulher. Esse último pode se manifestar em tempo, intensidade e topografia diferentes a cada contato. Isso serve de indicador de que, no tocante ao comportamento sexual, a flexibilidade dos parceiros e a abertura para vivenciar novas experiências se constituem nas principais qualidades para o sucesso nesse campo. Portanto, não há como estabelecer padrões específicos para a resposta sexual feminina. Cada mulher se estimulará sexualmente conforme sua história de vida pessoal, os sentimentos nutridos pelo parceiro, sua auto-estima, o nível de intimidade estabelecido entre ambos, sua capacidade de agir congruentemente nas diversas situações, entre outros. Master e Johnson (1976) consideram que o bom funcionamento sexual depende da integridade e da integração de três sistemas que constituem a pessoa: o fisiológico, o psicológico e os fatores socioculturais. Tudo que ameaça o nosso corpo, nosso psiquismo e nosso relacionamento social/afetivo é fator de risco, podendo levar a falhas sexuais.
Apesar dos avanços no campo do comportamento humano, da Sociologia, do Direito, e da socialização do conhecimento sobre o relacionamento humano em geral, os sujeitos têm sua vida sexual grandemente influenciada pelos valores culturais. Efetivamente, a cultura exerce controle sobre as atitudes e comportamentos sexuais, tanto no que diz respeito aos homens, quanto às mulheres. Embora seja considerado, atualmente, como fonte primária e especializada de prazer acessível a todos os cidadãos, o sexo, em seu aspecto erótico, é ainda rodeado de preconceitos, mitos, tabus e dogmas sujeitos a adaptações para atendimento a cultura particular. No livro A conduta sexual humana, Master e Johnson (1976, p. 158 e 159) dizem que: “… a resposta sexual ao orgasmo é a prerrogativa fisiológica de muitas mulheres, porém, sua realização em nossa cultura pode ser mais dependente da aceitação psicossocial da sexualidade …”
Existe uma cobrança excessiva para que tanto os homens quanto as mulheres alcancem o orgasmo a qualquer custo. Falhas na vida sexual, a rigor, não são consideradas comuns e, por tal motivo, passam a ser consideradas inaceitáveis e alvo de críticas e incompreensões. Aquele que apresenta dificuldades no campo da obtenção do prazer se sente fragilizado, temendo que sua situação o desvalorize como pessoa, atraindo, em consequência, críticas e menosprezo provenientes de seu parceiro. Por temer a indiferença do outro em relação à sua existência, dificilmente a mulher anorgásmica entende que, nas tentativas e erros, existe a fonte para o sucesso do ato sexual.
Outro aspecto a considerar é que a falta de confiança em si, as inibições diante do parceiro, a ansiedade e o medo podem atuar negativamente, dificultando o ganho de experiências e a naturalidade para o ato sexual. Essa visão negativa de si mesma tende a preservar as falhas e a reduzir, paulatinamente, a vontade de praticar o ato sexual. Como ilustração, vale citar Abdo quando diz:

Decepções sucessivas vão golpeando a auto-estima, preocupam e geram ansiedade, o que, por sua vez, aprisionam a pessoa num círculo vicioso, levando a mais falhas e a mais decepções. Constrangida, essa pessoa tende a se esquivar não só do sexo, mas do relacionamento em geral [...] (ABDO, 2004, p. 68).

Na sexualidade feminina, a desinformação, as crenças errôneas, os preconceitos religiosos e a não estimulação adequada da parceira, prejudicam a capacidade orgástica da mulher. Outros inimigos do alcance das aspirações sexuais dos parceiros é a falta de comunicação, a agressão, a falta de afeto, entre outros. Cada mulher tem sensibilidade e ritmo exclusivos e individuais. Ela deve conhecer com profundidade o modo como reage seu corpo aos estímulos de seu parceiro, suas zonas erógenas mais sensíveis, as técnicas de estimulação preferidas, para instruir seu companheiro quanto à melhor forma de usufruir do encontro sexual.
Cabe à mulher superar também seus pudores, eliminar crendices que a impedem de solicitar do parceiro, comportamentos mais adequados para o atendimento de suas expectativas. Além da maturidade dos parceiros que investem no jogo sexual, a ausência de elementos perturbadores contribui para o alcance do prazer e orgasmo durante o coito.

Veja o que mais você pode encontrar nesta edição

Sumário

Normas Para Publicação
 
Editorial
   
Trabalhos de Pesquisa
  O orgasmo na vida sexual da mulher contemporânea
Orgasm in sexual life of the contemporary woman
  Keila Eloisa Machado Santos Prata, Carlos Alberto Dias
  Fantasias sexuais – Uma pesquisa com universitários da zona norte do Rio de Janeiro
Sexual fantasies – A study of students of the North zone of Rio de Janeiro
  Diva Cristina de Paula Portella, Helena Theodoro Lopes
   
Artigos Opinativos e de Revisão
  Relativizando o sadomasoquismo para uma nova abordagem sexológica
Reviewing the concept of sadomasochism for a new sexological approach
  Fernando Luiz Cardoso
  Redução do desejo sexual: Três enfoques para uma reflexão crítica sobre a prática clínica
Reduction in sexual desire: Three approaches for a critical evaluation of the clinical practice
  Daniela Aiello D’alkimin
 
Resenha de Livro
 

Oficinas sobre sexualidade e gênero. Salvador: Helvécia,2007

  Fagundes, Tereza Cristina Pereira Carvalho; Barbosa, Maria Paquelet Moreira e Ângela Maria Freire de Lima e Souza
 
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