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RBSH - Volume 7 - No. 2 - 1996 PDF Imprimir E-mail

Destaque desta edição

Segmento do Artigo: O que é normal em sexualidade
Nelson Vitiello*

COMENTÁRIOS
O fato é que o exercício da sexualidade humana se rege num complexo contexto bio-psico-social. Nossa espécie, pela aquisição de sutis características anatômicas e fisiológicas, é a única no Reino Animal a poder exercer a sexualidade fora dos limitados padrões do sexo-reprodução. Nossa sexualidade, por isso mesmo, é influenciada fortemente, além dos fatores orgânicos, por elementos sociais e emocionais. E para cada um desses três compartimentos poderíamos traçar regras de “normalidade”.

No que diz respeito ao componente orgânico do exercício da sexualidade a norma fisiológica é que, frente a certos estímulos considerados eficientes (visão, tato, olfato ou mesmo imaginação), homens e mulheres entrem num ciclo de modificações orgânicas que se convencionou chamar “Ciclo de Resposta Sexual”. Assim, frente a esses estímulos, é “normal” que homens e mulheres se excitem, tendo ereções ou lubrificações vaginais, bem como é “normal” que antingido um certo grau de exitação sobrevenha o orgasmo. O “anormal” aqui, isto é, o não cumprimento desse ciclo, é o que se convencionou chamar de “disfunção sexual”.

Quanto aos aspectos sociais do exercício da sexualidade, o normal é aquilo que foi esboçado linhas atrás, ou seja, a prática heterossexual por casais como as características descritas. O que foge à essas normas é denominado de “desvio” (como a gerontofilia e a homossexualidade, por exemplo), “parafilia” (como o sadomasoquismo) ou até mesmo de “perversão” (a necrofilia, por exemplo), embora essa nomenclatura ainda não seja bem universalizada, havendo os que denominam de “desvio” o que outros chamam de “parafilia”, e vice-versa.

É no componente psicológico do exercício da sexualidade, no entanto, que em nosso ver existem mais dificuldades em se conceituar o normal. Na verdade, para saber se nossa sexualidade está sendo normalmente exercida, deve-se responder a indagação sobre se é ela satisfatória. Estou contente com minha sexualidade? Exerço-a prazerosamente? Estou satisfeito com a freqüência e com a maneira em que a exerço? Minha parceira (ou meu parceiro), por quem tenho afeto e a quem me é importante satisfazer, está feliz com esses parâmetros? A isso, a essa satisfação com o exercício da própria sexualidade, costuma-se denominar de “adequação sexual”. Quando essa adequação não existe, ou seja, quando se está insatisfeito com a prática da sexualidade, denomina-se a isso de “inadequação sexual”, que em última análise é o objeto de todas as correntes de terapia sexual, quer as de fundo orgânico, quer as de fundamentação Psicológica.

Em resumo, poderíamos dizer que o “normal” em sexualidade se resume ao satisfazer-se e satisfazer sexualmente seu parceiro ou sua parceira, desde que isso não traga riscos ou danos a si mesmo, ao (ou à) parceiro e ao meio social. Dentro desse princípio, o que cada pessoa ou cada par faz restrito de suas vidas privadas só a eles próprios interessa, cabendo a nós, como indivíduos e como membros da sociedade, respeitar as naturais e enriquecedoras diferenças que fazem do ser humano algo de tão maravilhoso.

*Ginecologista. Doutor em Medicina. Presidente da Sociedade Brasileira de estudos em Sexualidade Humana.
Recebido em 08.08.95 Aprovado em 19.08.95


Veja o que mais você pode encontrar nesta edição

Sumário

Editorial
  Trabalhos de Atualização e Opinativos
1 O que é normal em sexualidade
2 O universo, a vida, a sociedade e a sexualidade humana
   
  Trabalhos de Pesquisa
1 Era isso o que eu queria? Um estudo da maternidade e da paternidade na adolescência
2 O conceito de relação sexual: um estudo exploratório qualitativo
3 Os sentimentos das adolescentes em relação à imagem corporal
   
  Estudo de Caso
1 Relação incestuosa: estudo de caso
 
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