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Sexus - Volume 1 - No. 2 - 1989 PDF Imprimir E-mail

Destaque desta edição

ESTERILIDADE PRIMÃRIA POR VAGINISMO DE 14 ANOS
ISRAEL BERGER (1)
ALBERTO STEIN (2)
ELISABETE M ZELMANOWICZ (3)


COMENTÁRIOS
Descreve-se a evolução da abordagem terapêutica de um casal encaminhado ao ginecologista por
esterilidade primária causada por vaginismo de 14 anos de duração e as diferentes etapas do tratamento.

Os pacientes se apresentam elegantes, bem vestidos, classe média alta, com razoável nível de cultura, ambos têm instrução superior completa. Ela pedagoga, com 35 anos de idade, e ele engenheiro, com 41 anos; casados há 14 anos e que nunca tiveram coito vaginal por dor intensa que impossibilita a penetração. Cinco meses após o casamento, a paciente submeteu-se a himenectomia por ter sido diagnosticado "hímen rígido"; mesmo assim o problema persistiu. Mantém coito ante-portas e ocasionalmente tem orgasmo por estimulação clitoridiana; não faz nem aceita coito oral e nega coito anal.

Fez vários tratamentos medicamentosos e psicoterápicos sem alteração do quadro, e há dois anos raramente tentam coito por anteciparem dificuldades. Superficialmente , tentam dar a aparência de uma relação amistosa, na maior parte do tempo, mas freqüentemente as mágoas mútuas aparecem através de manifestações de hostilidade. Ele, face a sua profissão, viaja a cada uma ou duas semanas e mantém contato sexual com outras mulheres, fato que é do conhecimento de sua esposa mas sobre o qual não conversam.

Desde o nascimento, a paciente mora numa cidade do interior e neste local sua família construiu um patrimônio em negócios ligados a hotelaria, construção e administração de imóveis.
A paciente descreveu suas relações familiares como intensamente conflituosas e tensas. Seu pai tem 57 anos, alcoolista e, pela descrição da paciente, apresenta quadro psiquiátrico compatível com doença afetiva tipo doença maníaco-depressiva. Ele é cardiopata (fez cirurgia de revascularização peniana sem sucesso). Sua mãe tem 59 anos, distante, pouco afetiva, sempre deu mais atenção ao filho, não escondendo sua preferência por este. O irmão tem 32 anos, casado, advogado, cuida dos aspectos legais da administradora e funciona como relações públicas. Sempre foi e ainda é pouco responsável, promíscuo, tendo sua juventude muito perturbada, ligada a álcool e tóxicos.

Quem realmente desenvolveu e administra de fato esta empresa familiar é o marido da paciente, que trabalha neste local há 16 anos, ou seja, dois anos antes de casar-se com a filha do proprietário. Seu sogro é importante na empresa por ter seu nome ligado a ela, sendo seu fundador e pessoa de muito prestígio na cidade onde vivem, mas seu papel é decorativo.

Face ao problema sexual, o casal pensava e discutia a possibilidade de separação. Julgaram que talvez um filho pudesse resolver seus problemas e foram encaminhados ao ginecologista para inseminação artificial homóloga (ele tem espermocitograma normal). A idéia inicial era não tratar o vaginismo, pois todas as tentativas anteriores não obtiveram resultado e sempre geravam expectativa e ansiedade muito grandes.

Uma observação final seria que tipo de ensinamentos poderíamos extrair do presente caso e o porquê de sua divulgação. Vários são os aspectos a salientar:

1. O casal foi encaminhado para inseminação, mas, tendo sido estabelecida uma boa relação médico-paciente, conseguiu-se convencê-los de que outras alternativas poderiam ser usadas no presente caso;

2. Chama-nos a atenção a excessiva manipulação anterior por terapeutas e médicos aos quais o casal submeteu-se e as conseqüências adversas daí advindas;

3. Com a problemática sexual resolvida, puderam dar-se conta que suas dificuldades envolviam planos mais profundos, o que não conseguiam ver na medida que a disfunção sexual parecia ser seu único problema;

4. Outro aspecto importante é a sensibilidade que os terapeutas devem ter para reconhecer o momento mais próprio para que a terapia ocorra. Neste caso específico, viu-se que o casal não estava pronto e, ao respeitar-se isto, criou-se a oportunidade de uma volta à terapia com motivação real e, portanto, com melhores chances de sucesso, ou seja, melhor integração das pessoas como indivíduos e como casal,o que Ihes possibilita decidirem melhor a responsabilidade de seu destino;

5. Espera-se que o profissional que tenha contato inicial com queixa semelhante, tenha suficiente sensibilidade e, principalmente, conhecimentos para a abordagem inicial (neste caso, a terapia do vaginismo) e, quando indicado, encaminhamento à psicoterapia;

6. Esse é um exemplo, como diria Kaplan, em que houve "by pass" dos problemas psicológicos através das técnicas comportamentais.

(1) Ginecologista do Instituto Ginestie - Porto Alegre.
(2) Psiquiatra, terapeuta de faml1ia e de casais, Instituto Ginestie, Porto Alegre.
(3) Psicóloga, terapeuta de casais. Instituto Ginestie, Porto Alegre.


Veja o que mais você pode encontrar nesta edição


Sumário

Editorial
  Jean Claude Nahoum
   
ARTIGOS
ANTICONCEPÇÃO
  Afrânio de Alencar Matos
ESTERILIDADE PRIMÁRIA POR VAGINISMO DE 14 ANOS
  Israel Berger - Alberto Stein - Elisabete M Zelmanowicz
SEXUALIDADE E REGULAÇÃO DA FECUNDIDADE NA ADOLESCÊNCIA
  Márcio Ruiz Schiavo
EJACULAÇÃO PREMATURA - Incidência e implicações na disfunção erétil
  Oswaldo Martins Rodrigues Júnior - Moacir Costa - Sidney Glina - Pedro Puech Leão
   
DE SEXU DOCUMENTA
SOBRE A INQUlSIÇÃO NO BRASIL - Confissões e denúncias Casos de nefando pecado
   
PADARIA ESPIRITUAL
DE PÃO, PADARIA E PADEIRO
  JCN
AIOS -'- Metodologia, honestidade e outras mágicas
  JCN
A "LEI DE GERSON"
  Z
USP RAIOS AGAIN
  PC
GALLO RAIOS AGAIN
  PC
HISTÓRIA DA AIDS, OU MELHOR, SUA PRÉ-HISTÓRIA
  JCN
ALARMISMO OU BURRICE I
  JCN
ALARMISMO OU BURRICE 11
  JCN
DA RAINHA VITÓRIA A FREUD
  JCN
SIMONE DE BEAUVOIR
  JCN
FAMÍLIA-SEXO E O COTIDIANO
  JCN
   
SEX-ARTE
   
NOTICIÁRIO
   
NOSSA CAPA
  Casanova soprando um condom The Library of Congresso Washington.
 
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