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Sexus - Volume 1 - No. 3 - 1989 PDF Imprimir E-mail

Destaque desta edição

PADARIA ESPIRITUAL

COMENTÁRIOS
o limpo e o sujo

Com este título, traduzido do francês, editado em Portugal mas encontrado em nossas livrarias, o estudo da higiene do corpo da Idade Média a nossos dias. O autor, Georges Vigarello.
A água medieval é festiva. O banho é um jogo, um lazer, um local de encontros propiciando transgressões. A iconografia nos revela esses banhos públicos, para ambos os sexos, simultaneamente. Visa-se o bem-estar da alma e o do corpo, mas este não implica no significado atual de lavar.
Depois - o que aos olhos atuais é regressão - quase repentinamente, o banho é proibido. Médicos e moralistas se unem no combate: a pele é porosa, o banho permite o fluxo de matérias nos dois sentidos, entrar e sair; entram e saem água, ar, miasmas, calor. O banho é perigoso; o banho é mortal. É também imoral.

Todavia, e sempre é assim, casas de banho permanecem ilegais. Nelas - os
motéis da época - associam-se sexo, comida e imersão; a dois ou coletivos. Há sobre esse banho-luxúria (mas não no livro em análise) rica iconografia.
Estudo sobre o limpo e o sujo inclui a roupa. A única camisa que se possui, para a maioria, duas ou três para os ricos, lavada aos fins de semana, ou menos, secando após, enquanto o dono, torso nu, espera para vesti-Ia de novo.
O corpo nunca é lavado, pelo menos como o entendemos hoje. Excetuam-se as mãos, o rosto no qual se passa uma água fria de manhã, adicionada de água de colônia ou similar: os pés, tiradas as botinas ao fim do dia, banham-se em água quente que esposas, filhas ou domésticos trazem para o dono da casa ou como gentileza a uma visita. Mas o resto... nunca! Todos, pobres e ricos, uns mais, outros menos têm piolhos, carrapatos, pulgas, micoses e as conseqüentes cascas, fissuras,
pruridos. Gradativamente o banho volta.Em plena Paris, para os remediados, há instalações públicas no Sena. Outros banhos são tomados em cubas de madeira, levando-se, em panelas e outros recipientes, a água aquecida(*). Os ricos no século XIX mandarão construir instalações especiais - dessas que hoje chamamos "banheiro", inicialmente presentes só nos castelos mas que no início do século XX se encontram nos apartamentos de luxo.

Pintores, impressionistas sobretudo, Degas, Toulouse.Lautrec e outros, deliciavam-se com o tema do banho, uma cuba, um vaso para verter água. As prostitutas possuíam uma bacia,que servia a ela e a ele, a mesma água, às vezes, para sucessivos clientes.

Esse tema do lavar e do genital faz-me voltar ao século XVII para transcrever trechos do famoso Mauriceau, por certo o mais respeitado parteiro da época. Mauriceau explica a necessidade do prazer para que se dê a reprodução: 'As partes do homem e as da mulher que servem à geração foram dotadas de sensibilidade, uma cócega agradável, um doce formigamento que os excíta à ação. Assim não sendo, seria impossível ao homem, este animal divino, nascido para a contemplação das coisas celestes, juntar-se à mulher. Se assim não fosse ele fugiria da sujeira e do mal cheiro dessa parte, receptáculo de todas as imundícies do corpo da mulher, e não se resolveria a colocar este membro que lhe é tão querido a um dedo de distância do ânus..:'. Mas essa reflexão vem depois do ato e não surge quando o prazer domina. Talvez por isso o "Post coitum omne animal triste".

(Jean Claude Nahoum)

(*)São ainda dessas últimas décadas os hotéis nos quais quem pretende banho deve avisar de véspera, para que seja preparado. Cada banho é pago em suplemento da diária e não convém solicitar mais de um por semana para não despertar suspeitas de não ser normal, quem sabe ter doenças da pele, caso em que as suspeitas fazem o hotel denunciar o fato à policia sanitária.

Veja o que mais você pode encontrar nesta edição

Sumário

Editorial
ACEITAMOS AMEAÇAS
  Jean Claude Nahoum
   
ARTIGOS
PERCEPÇÃO E RESPOSTA SEXUAL HUMANA
  J. J. Serapião
SEXOLOGIA E HOMOSSEXUALIDADE - Histórias interligadas
  Araguari Chalar Silva
EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS - Relato de uma experiência de intervenção através de orientação para o professor
  Tereza Cristina RC. Fagundes
   
DE SEXU DOCUMENTA
CHEVALiER D'EON DE BEAUMONT - Um homem, uma mulher
   
PADARIA ESPIRITUAL
SALMÃO, BACALHAU E BANANA I
SALMÃO, BACALHAU E BANANA II
O LIMPO E O SUJO
A EXPERIÊNCIA BURGUESA DA RAINHA VITÓRIA A FREUD
MONTAGNIER RAIDS AGAIN
DE QUEM É O PÃO QUE SAlDO FORNO?
AIDS EM ITU
FOGO CURITIBANO I
FOGO CURITIBANO II
FOGO CURITIBANO III
AMOR EM FALTA
PASSIVO E ATIVO
MUDAR É PRECISO... COM HIV OU SEM HIV
UNIFORMIZAÇÃO SEXUAL... SERIA POSSÍVEL?
NASCERÁ MAIS UMA PUBLICAÇÃO EM SEXOLOGIA
MAIS CONGRESSO
O NUDES AGRADECE
   
SEX-ARTE
   
NOTICIÁRIO
   
NOSSA CAPA
  Cena erótica de lupanar. Pompéia.

 

 
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