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Sexus - Volume 2 - No. 2 - 1990 PDF Imprimir E-mail

Destaque desta edição

Ejaculação Feminina ou Incontinência Urinária?

COMENTÁRIOS
Esta é uma questão delicada, não tanto por ter importância clínica em si, mas porque constrange muitas mulheres e tem criado discussões intermináveis nos meios científicos. Quando se fala que mulheres podem ejacular um fluido semelhante à secreção prostática isso não causa maiores polêmicas, afinal, que diferença faz se há ou não essa tal ejaculação? No entanto quando se diz que o volume fluido que ela pode ejacular é algo em torno de 3 a 15 ml (ou seja, o mesmo ou até mais do que ele) e que isso pode ser notado por ambos os parceiros a ponto de deixar muitos homens espantados e muitas mulheres envergonhadas, aí a confusão começa.

Para a maioria dos ginecologistas essas secreções abundantes advindas do orgasmo da mulher são basicamente perdas urinárias resultantes da tensão abdominal, algo do tipo da incontinência urinária de esforço. Dessa forma, uma pequena perda de urina no momento do orgasmo seria a verdadeira a origem do tal fluido abundante "ejaculado".
Notem que para a mulher a diferença é tão grande como ter uma função sexual muito intensa ou fazer xixi na cama (e no parceiro) ao final da relação. Como se vê, em têrmos de auto-imagem uma senhora diferença. Além do mais, a dúvida de ser normal ou ser doente pode ser definitiva para a qualidade do contato sexual. Não são poucas as referências de disfunção sexual feminina por medo do vexame de "urinar-se" no fim.
Também para o terapeuta que recebe a queixa e se propõe a tratá-Ia, a coisa toda merece cuidado. Haveria o risco de indicar exercícios do tipo Kegel ou até mesmo cirurgia para uma ejaculadora e, lógico, não resolver nada com o tratamento, ou por outro lado, no caso oposto, deixar passar como ejaculação uma verdadeira incontinência urinária, que um outro colega, logo ali na frente, diagnostica e trata com sucesso.
Tudo isso tem gerado inúmeras tentativas de definir se a tal ejaculação feminina existe mesmo, como um fenômeno consistente e com um volume expressivo de secreção ou se isso tudo não passa de mais uma invenção de moda para justificar a notoriedade dos "descobridores" e aliviar o incomodo vexatório das ejaculadoras.
Em dezembro último, no Congresso Mundial de Sexologia, Jobo Perry, um dos mais ardorosos defensores da ejaculação feminina e co-autor com Ladas e Whipple do best seller sobre o "Ponto G", reclamou furiosamente da discriminação de que ele tem sido vítima, e queixou-se inclusive que as revistas de sexologia se recusam a publicar artigos a favor das teses que ele tem defendido.
Neste início de ano, contrariando a queixa de Perry, o Archives of Sexual Behavior, uma das mais conceituadoas revistas de sexologia, trouxe uma nova pesquisa sobre o tema. Três estudiosos, Darling, Davidson e Conway- Welch, das universidades da Fl6rida, Winsconsin e Vanderbilt, utilizaram um questionário remetido a 1289 mulheres e que teve uma taxa de retôrno de 55%.
Fica uma ponta de dúvida sobre a adequação de um questionário como instrumento de estudo para esse tipo de problema. Afinal, seriam as mulheres que acreditam ou não ejacular as melhores fontes de estudo para saber o que a ejaculação feminina poderia ser? Talvez assim se incorra no erro de tentar saber se fantasmas existem perguntando quantas pessoas acreditam neles. Para muitos a solução laboratorial (tipo análise bioquímica da secreção ejaculada) seria a melhor alternativa e poderia atestar se o tal fluido é urina ou se tem orígem prostática. Os autores, entretanto argumentam que a típica presença de PAP (fosfato ácido prostático), uréia, creatinina, e glicose em níveis semelhantes não confirmaria a origem urinária da secreção, uma vez que a aparência visual, em têrmos de cor e viscosidade é bem diferente. Além disso, a dificuldade de se ter uma técnica precisa para coleta do material também deixa as coisas mais confusas.
Por isso Darling, Davidson e Conway-Welch preferiram avaliar a percepção das próprias mulheres e a experiência que elas acumularam. Os resultados obtidos indicaram que 58% das mulheres conheciam o assunto através de livros, jornais técnicos ou revistas e 56.1% haviam discutido esse tema com amigas (65.5%), colegas (51.2%), com maridos (48.2%), com amigos (30%) ou com parceiros sexuais (28.8%). No entanto houve diferença entre as ejaculadoras e não ejaculadoras em relação aos parceiros escolhidos para o diálogo. Enquanto as não ejaculadoras tenderam a conversar mais com colegas, as ejaculadoras conversaram mais com os parceiros sexuais, possivelmente em função do próprio fato da ejaculação acontecer e exigir que ela se justifique. Também é notavel, em têrmos do nível de auto-estima, que o grupo das ejaculadoras se vê com um desempenho sexual mais pleno do que as não ejaculadoras, na medida em que elas se auto-avaliam como "acima da média" quanto à responsividade sexual. Mas elas também têm maiores problemas quanto ao temor de urinar, sendo que 16.1% delas já bloquearam o orgasmo por causa desse medo, contra 10.1% entre as não ejaculadoras. Dentre essas mulheres, 39.5% das ejaculadoras e 14.1 % das não-ejaculadoras acreditam já ter alguma vez urinado mesmo durante o orgasmo.
O fato é que as mulheres que pensam ter ejaculado avaliam a própria sexualidade de maneira mais favorável e defendem uma idéia bem menos embaraçosa do que a incontinência urinária, e como 40% da amostra estudada declarou já ter ejaculado, sugere-se que uma grande proporção de mulheres na população geral pode dormir tranquila, mesmo com o lençol (e o parceiro) um pouco mais molhados do que o habitual.

Referência:
- Darling, C.A.; Davidson, J.K. & Conway-Welch. c.: Female Ejaculation: Perceived Origins, The Grafenberg Spot/Area and Sexual Responsiveness.
Arch. Sex. Behav. 19:1, 1990

Veja o que mais você pode encontrar nesta edição

Sumario

EDITORIAL
VIDA ADULTA
 
ARTIGOS
A SEXUALIDADE MASCULINA DA CLASSE MÉDIA DE SALVADOR, BAHIA, BRASIL, EM QUESTÃO
  Dra. Gilda Bacal Fucs
(CON) TATO E DIÁLOGO NA EDUCAÇÃO SEXUAL
  Maria do Amparo Rocha Caridade
A SEXUALIDADE DO DEFICIENTE MENTAL: UM MITO EM QUESTÃO
  Lilia Maria de Azevedo Moreira
ASPECTOS SOCIO-CULTURALES E HISTORICOS CONCERNIENTES A LA SEXUALIDAD EN CUBA
  Mónica Krause Peters
   
PADARIA ESPIRITUAL
A ÉTICA DA CONVENIÊNCIA
   
SEX-ARTE
   
SEXUS DOCUMENTA
GALERIA DE HOMOSSEXUAIS FAMOSOS
   
NOTÍCIAS
   
NOSSA CAPA
  "O Velho Glutão", Gravura anônima do século XVIII
 
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